Há uma pergunta que a humanidade nunca deixou de fazer, desde que começou a compreender que a morte não era apenas uma inevitabilidade imediata mas um horizonte que a medicina, a genética e os hábitos de vida podiam, em teoria, recuar: porque razão algumas pessoas chegam aos 90, aos 100 e até aos 110 anos com lucidez, autonomia e alegria de viver, enquanto outras, com aparentemente os mesmos recursos e as mesmas condições, envelhecem muito antes disso? A ciência mais recente está a aproximar-se de uma resposta, e ela é mais complexa, mais surpreendente e mais esperançosa do que qualquer fórmula simples poderia sugerir.
A investigação mais abrangente actualmente em curso sobre longevidade extrema em seres humanos é o Projecto Genoma USP, liderado pela professora e geneticista Mayana Zatz, no Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo. O estudo, cujos resultados preliminares foram publicados em Janeiro de 2026 na revista científica Genomic Psychiatry, acompanha mais de 160 centenários e 20 supercentenários — pessoas com mais de 110 anos de idade validada — distribuídos por várias regiões do Brasil. Entre os participantes esteve a freira Inah Canabarro Lucas, reconhecida pelo registo internacional LongeviQuest como a pessoa mais velha do mundo até à sua morte, em Abril de 2025, aos 116 anos, e João Marinho Neto, nascido em 1912 e oficialmente reconhecido pelo Guinness World Records em 2024 como o homem mais velho do mundo, ainda vivo aos 113 anos. O estudo inclui também uma das famílias mais longevas alguma vez registadas: uma mulher de 110 anos com três sobrinhas com 100, 104 e 106 anos. Uma das sobrinhas começou a nadar depois dos 70 anos e é recordista sul-americana na sua categoria etária.
O que a equipa do Genoma USP descobriu ao analisar geneticamente, celularmente e imunologicamente estes supercentenários contraria de forma significativa a intuição popular. Uma parte substancial destes indivíduos não seguiu qualquer regime de vida exemplar. Entre os participantes há sedentários, pessoas que consumiram álcool regularmente ao longo da vida, e alguns que foram tabagistas durante décadas. A conclusão dos investigadores é directa: nestas idades extremas, a sobrevivência com qualidade de vida é atribuída em grande medida a um carácter genético específico que vai além dos hábitos individuais. Como explicou Mateus Vidigal, primeiro autor do estudo, a equipa identificou nas células sanguíneas dos supercentenários três mecanismos biológicos excepcionais que os distinguem da restante população envelhecida. O primeiro é a manutenção, em níveis comparáveis aos de pessoas muito mais jovens, da actividade do proteassoma — o sistema celular responsável pela remoção de proteínas danificadas ou desnecessárias que, noutros organismos envelhecidos, se acumula e provoca deterioração celular progressiva. O segundo mecanismo é a autofagia: a capacidade das células de se reciclarem internamente, eliminando estruturas defeituosas e renovando os seus componentes de forma eficiente durante décadas mais do que o habitual. O terceiro é imunológico e particularmente impressionante: os supercentenários apresentam uma expansão incomum de células T CD4 citotóxicas com perfis funcionais normalmente atribuídos às células CD8, ou seja, o seu sistema imunitário adapta-se de forma extraordinária ao envelhecimento, mantendo a capacidade de combater infecções e eliminar células defeituosas muito além dos 100 anos. A demonstração mais dramática desta resiliência imunológica foi documentada durante a pandemia de Covid-19: três brasileiros com mais de 110 anos contraíram o vírus em 2020, antes de qualquer vacina estar disponível, e recuperaram-se — desenvolvendo altos níveis de anticorpos neutralizantes sem qualquer intervenção farmacológica específica.
A investigação sueca publicada na revista GeroScience acrescenta uma dimensão metabólica fundamental a este retrato. Num estudo que acompanhou 44 000 suecos entre os 64 e os 99 anos durante 35 anos, e no qual apenas 2,7% atingiram os 100 anos, os investigadores analisaram 12 biomarcadores sanguíneos ao longo do tempo e descobriram que os centenários apresentavam, desde os 60 anos, níveis significativamente mais baixos de glicose, creatinina e ácido úrico. Pessoas com valores extremamente elevados de colesterol total, ferro, glicose, creatinina e marcadores de função hepática tinham uma probabilidade substancialmente menor de chegar ao século de vida. O detalhe mais revelador não era a diferença nas médias dos biomarcadores entre centenários e não-centenários, mas sim a ausência de valores extremos nos primeiros: os centenários não tinham necessariamente os melhores valores em cada indicador, mas raramente apresentavam os piores. A estabilidade metabólica ao longo das décadas, mais do que a optimização de qualquer parâmetro isolado, parece ser uma característica distintiva dos que chegam a idades muito avançadas.
A questão de quando os genes assumem o controlo sobre o estilo de vida é uma das mais pertinentes da gerontologia actual, e a resposta emergente da investigação é surpreendentemente precisa. De acordo com Mateus Vidigal, até aproximadamente os 90 anos o envelhecimento é maioritariamente influenciado por factores ambientais e comportamentais, responsáveis por cerca de 80% do processo. A genética tem um peso menor nessa fase. Após essa idade, porém, a contribuição genética tende a tornar-se progressivamente mais relevante. Esta distinção temporal tem implicações práticas de enorme importância: significa que, para a grande maioria das pessoas, os hábitos de vida durante as décadas de 40, 50, 60 e 70 anos determinam em larga medida se chegam saudáveis aos 90. Mas quem chega além dessa fronteira faz-o, em parte crescente, graças a uma dotação genética que a ciência ainda está a descodificar.
É precisamente aqui que as Zonas Azuis — as regiões do mundo com a maior concentração de nonagenários e centenários saudáveis — oferecem um retrato complementar e extraordinariamente revelador. O investigador norte-americano Dan Buettner identificou cinco destas regiões ao longo de décadas de investigação de campo: Okinawa, no Japão; a ilha de Sardenha, em Itália; a Península de Nicoya, na Costa Rica; a ilha de Icária, na Grécia; e Loma Linda, na Califórnia, uma comunidade de Adventistas do Sétimo Dia. Estas comunidades não partilham uma dieta idêntica, nem o mesmo clima, nem a mesma religião. O que partilham são padrões de vida que a investigação científica confirmou como promotores de longevidade saudável: movimento físico natural e integrado na rotina diária, seja na agricultura, na pesca ou simplesmente nas caminhadas para casa; uma alimentação baseada predominantemente em alimentos de origem vegetal, com mais de 60% das calorias provenientes de leguminosas, cereais integrais, vegetais e fruta; o hábito de parar de comer quando se está 80% saciado, uma prática denominada em japonês de hara hachi bu que impede sistematicamente a sobre-alimentação; e, de forma talvez mais surpreendente para a medicina ocidental, um propósito de vida claramente articulado — o ikigai japonês, ou o plano de vida costarriquenho — que a investigação neurológica associa a menor inflamação, melhor função imunitária e maior resiliência ao stress.
As conexões sociais emergem, em praticamente todos os estudos sobre longevidade, como um dos factores mais determinantes e simultaneamente mais subestimados. Em Okinawa, os moais — grupos de cinco a oito amigos comprometidos a apoiarem-se mutuamente ao longo de toda a vida, desde a infância — funcionam como redes de segurança emocional, financeira e prática que reduzem o stress crónico e mantêm o sentido de pertença mesmo nas idades mais avançadas. A solidão crónica, pelo contrário, tem sido associada a um aumento do risco de mortalidade prematura equivalente ao de fumar quinze cigarros por dia, segundo investigação publicada na revista Perspectives on Psychological Science. O isolamento activa as mesmas cascatas inflamatórias que o stress físico, eleva o cortisol de forma crónica e acelera o processo de encurtamento dos telómeros, os segmentos protectores das extremidades dos cromossomas cujo comprimento é um dos marcadores biológicos mais fiáveis do envelhecimento celular.
A dimensão espiritual e o sentido de propósito são outro eixo que a investigação sobre longevidade identificou de forma consistente. Não se trata necessariamente de religiosidade no sentido formal, mas da existência de uma razão clara para acordar de manhã, de um conjunto de valores que organiza as escolhas quotidianas e de um sentimento de contribuição para algo maior do que o próprio indivíduo. Estudos conduzidos no âmbito do Projecto de Longevidade de Harvard, que acompanhou participantes durante mais de oito décadas, demonstraram que as pessoas com maior sentido de propósito apresentavam menor inflamação sistémica, melhor função cardiovascular, maior resiliência cognitiva ao envelhecimento e uma probabilidade significativamente superior de atingir idades avançadas com qualidade de vida preservada.
Para Portugal, onde a esperança de vida ao nascer se situa acima dos 81 anos e a percentagem da população com mais de 65 anos é uma das mais elevadas da União Europeia, estas descobertas chegam com uma pertinência imediata. O país tem centenários próprios, uma tradição alimentar mediterrânica com muitos dos atributos das Zonas Azuis, comunidades rurais com laços sociais fortes e uma relação secular com a natureza que a investigação científica confirma como protectora. O que falta, em parte, é o reconhecimento institucional de que investir na qualidade do envelhecimento não é apenas uma questão de compaixão social mas de racionalidade económica e científica. O colapso dos sistemas de saúde face ao envelhecimento demográfico não se resolve apenas com mais medicamentos e mais camas hospitalares. Resolve-se também — e cada vez mais a ciência insiste nisso — com os mesmos hábitos, vínculos e propósitos que fizeram, ao longo de milénios, as pessoas das Zonas Azuis chegarem ao fim das suas vidas longas com o mesmo sorriso com que as viveram.
A longevidade com saúde não é um destino reservado a uma elite genética. É, até aos 90 anos, em grande medida uma construção diária. E a ciência, finalmente, sabe dizer como se constrói.
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