Erros comuns ao praticar atividade física

 

Nunca tantos portugueses praticaram actividade física com tanta regularidade. Os ginásios enchem, as corridas de rua multiplicam-se, o ciclismo urbano cresce e a cultura do exercício instalou-se de forma transversal em faixas etárias e contextos sociais que há uma geração eram completamente alheios a ela. E, no entanto, nunca tantos praticantes se queixaram de lesões recorrentes, de estagnação nos resultados, de fadiga crónica ou de abandono precoce da actividade. O paradoxo é apenas aparente: a ciência do exercício identificou há muito um conjunto de erros sistemáticos que a maioria dos praticantes amadores comete, independentemente da modalidade, do nível de condição física ou da intensidade do esforço. São erros silenciosos, frequentemente invisíveis no curto prazo, mas com consequências cumulativas que minam progressivamente a saúde, o desempenho e a motivação. Conhecê-los é o primeiro passo para os evitar.

O erro mais comum e com consequências mais imediatas é a ausência ou insuficiência do aquecimento antes do treino. A investigação científica é unânime neste ponto: o aquecimento não é uma formalidade dispensável para quem tem pressa ou para quem considera que o seu nível de forma física o torna imune à lesão. É um processo fisiológico essencial que prepara o sistema musculoesquelético, cardiovascular e neurológico para o esforço que se aproxima. Durante o aquecimento, a temperatura muscular sobe progressivamente, o que aumenta a elasticidade das fibras musculares e dos tendões, melhora a velocidade de condução dos impulsos nervosos, activa os reflexos neuromusculares e aumenta o fluxo sanguíneo para os grupos musculares que vão ser recrutados. Um músculo frio tem menor capacidade de absorver forças de tracção e de torsão, é mais rígido e mais propenso à rotura. As roturas musculares na coxa, as tendinopatias do joelho e as entorses do tornozelo são frequentemente o resultado directo de um arranque de treino sem preparação prévia adequada. O aquecimento ideal combina cinco a dez minutos de actividade cardiovascular moderada com exercícios de mobilidade articular dinâmica direccionados para os grupos musculares que serão mais solicitados na sessão. A intensidade e a complexidade dos movimentos devem aumentar progressivamente até se atingir uma aproximação ao padrão de movimento do exercício principal.

O erro simétrico ao aquecimento insuficiente é a negligência do retorno à calma no final do treino, que os profissionais designam de cool down. Interromper abruptamente um exercício intenso sem um período de desaceleração gradual obriga o sistema cardiovascular a uma transição abrupta que pode provocar acumulação de sangue nos membros inferiores, queda da pressão arterial e, em casos extremos, episódios de síncope ou arritmia. Do ponto de vista muscular, a ausência de alongamentos estáticos no final do treino contribui para o encurtamento progressivo das fibras musculares, o aumento da rigidez articular a longo prazo e a amplificação da sensação de dores musculares retardadas nas 24 a 72 horas seguintes ao esforço. Os alongamentos estáticos do final do treino devem ser mantidos por um mínimo de 30 segundos em cada posição, repetidos em três séries, com ênfase nos grupos musculares mais solicitados durante a sessão. A respiração durante o alongamento deve ser lenta e profunda, aproveitando a expiração para aprofundar progressivamente a amplitude do movimento.

O terceiro erro sistemático é a progressão demasiado rápida da carga ou da intensidade do treino. A ciência do exercício designa este fenómeno como síndrome de sobrecarga ou overtraining quando a sua expressão é mais grave, mas as suas manifestações iniciais são muito mais subtis: fadiga persistente que não cede com o descanso habitual, queda inesperada do desempenho em exercícios anteriormente bem dominados, irritabilidade aumentada, perturbações do sono e ausência de motivação para treinar. Estimativas baseadas em estudos clínicos indicam que cerca de 60% das lesões em corredores são directamente atribuíveis a erros de treino, e a progressão excessiva da carga é o mais prevalente de todos eles. O princípio da progressão gradual, estabelecido pelas principais organizações internacionais de medicina desportiva, recomenda que o aumento semanal do volume de treino não exceda os 10% relativamente à semana anterior. Um corredor que percorre 20 quilómetros por semana não deve, portanto, passar para 30 quilómetros na semana seguinte, mas sim para 22. Esta regra aplica-se igualmente ao treino de força, onde o aumento de carga deve ser incremental e baseado no domínio completo da técnica de execução ao nível anterior, e não na motivação ou na sensação subjectiva de capacidade.

A técnica de execução deficiente é talvez o erro com consequências mais duradouras e mais difíceis de corrigir uma vez instalado. Cada exercício físico possui um padrão de movimento optimizado que maximiza o recrutamento muscular desejado e minimiza o stress nas estruturas articulares e tendinosas. Quando esse padrão é substituído por compensações posturais, ângulos incorrectos ou amplitudes de movimento inadequadas, o exercício perde eficácia e torna-se simultaneamente uma fonte de microtraumatismos repetidos que se acumulam em lesões crónicas. O exemplo mais documentado é o agachamento com os joelhos em valgo, em que os joelhos colapsam para dentro durante a descida, criando forças de torsão sobre o ligamento cruzado anterior e sobre a cartilagem articular que, repetidas centenas de vezes ao longo de semanas de treino, aumentam significativamente o risco de lesão. A lesão do manguito rotador no ombro, a tendinopatia patelar no joelho e as hérnias discais lombares são outras das patologias mais frequentemente associadas a erros técnicos sistemáticos em exercícios de força. A supervisão de um profissional de educação física, pelo menos nas fases iniciais de aprendizagem de um exercício, é o investimento com maior retorno na prevenção de lesões a longo prazo.

A subestimação do descanso e da recuperação é um dos erros mais contraintuitivos mas mais documentados pela fisiologia do exercício. A cultura do "no pain, no gain" e a glorificação do esforço extremo produziram gerações de praticantes convencidos de que mais treino equivale sempre a melhores resultados. A biologia diz o contrário: o treino físico não produz adaptações durante a sessão de exercício, mas sim durante os períodos de recuperação que se lhe seguem. É no repouso, e em particular durante o sono profundo, que ocorrem os processos de reparação das microlesões musculares induzidas pelo treino, a síntese de novas proteínas musculares, a consolidação das adaptações neuromusculares e a reposição das reservas de glicogénio. Treinar o mesmo grupo muscular sem um mínimo de 48 horas de recuperação entre sessões intensas impede este processo de completar-se, eleva cronicamente os níveis de cortisol, inibe a via mTOR responsável pela síntese proteica e cria condições de fadiga acumulada que aumentam o risco de lesão e comprometem os resultados. O sono de qualidade, em quantidade suficiente, é tão determinante para os resultados do treino quanto a própria sessão de exercício.

A hidratação insuficiente durante o treino é um erro que muitos praticantes cometem por subestimação, por inconveniência ou por confusão entre sensação de sede e estado real de hidratação. A sede é, do ponto de vista fisiológico, um sinal tardio de desidratação: quando aparece, o organismo já perdeu entre 1% e 2% do seu peso em água, o que é suficiente para reduzir o desempenho aeróbico em cerca de 10% e aumentar a frequência cardíaca para a mesma intensidade de esforço. Uma desidratação de apenas 2% compromete a termorregulação, reduz a lubrificação articular, diminui a elasticidade dos tecidos conjuntivos e prejudica a função cognitiva, incluindo a capacidade de coordenação e de reacção. A recomendação geral é beber 500 mililitros de água nas duas horas anteriores ao treino, manter uma ingestão regular de 150 a 250 mililitros a cada 15 a 20 minutos durante o exercício e repor os fluidos perdidos nas horas seguintes ao treino. Em sessões superiores a 60 minutos de intensidade moderada a elevada, a adição de electrólitos, em particular sódio e potássio, é recomendada para compensar as perdas pelo suor.

A ausência de variedade no treino, designada pelos especialistas como monotonia do treino, é um erro que actua em dois planos simultâneos: o fisiológico e o psicológico. Do ponto de vista fisiológico, o corpo humano adapta-se com notável eficiência a qualquer estímulo repetido, tornando-se progressivamente mais económico na execução de um movimento que pratica regularmente. Isso significa que o mesmo exercício, realizado com a mesma carga e a mesma intensidade, produz cada vez menos adaptação à medida que as semanas passam. A estagnação dos resultados que tantos praticantes experienciam após os primeiros meses de treino é, na maioria dos casos, a expressão directa desta adaptação fisiológica. A variação da intensidade, do volume, dos exercícios, dos ângulos de trabalho e dos métodos de treino é o estímulo necessário para manter a progressão das adaptações. Do ponto de vista psicológico, a monotonia é um dos principais preditores de abandono da actividade física: a falta de novidade, de desafio e de prazer na prática são factores de desmotivação que a investigação em psicologia do desporto identifica consistentemente como razões para a interrupção da actividade regular.

A nutrição pré e pós-treino inadequada fecha este quadro de erros sistemáticos com uma dimensão que a maioria dos praticantes amadores subestima de forma consistente. Treinar em jejum prolongado, sem qualquer aporte de hidratos de carbono nas horas anteriores a uma sessão intensa, priva os músculos do glicogénio necessário para sustentar o esforço, força o organismo a recorrer à degradação de proteínas musculares como fonte de energia e compromete tanto o desempenho durante o treino como a recuperação subsequente. Do lado oposto, a ausência de uma refeição de recuperação nas duas horas seguintes ao treino perde a janela de maior sensibilidade à insulina em que os músculos estão mais receptivos à absorção de glicose e aminoácidos. A investigação em nutrição desportiva recomenda actualmente entre 1,6 e 2,2 gramas de proteína por quilograma de peso corporal por dia para quem pratica exercício de força com regularidade, distribuídos em quatro a cinco refeições ao longo do dia para maximizar a síntese proteica. Os hidratos de carbono complexos nas refeições pré-treino e uma combinação de proteína e hidratos de absorção rápida na refeição de recuperação são os pilares nutricionais de um treino que produz os resultados a que se propõe.

O que todos estes erros têm em comum é que nenhum deles é inevitável, nenhum exige recursos especiais para ser corrigido e todos eles são o produto de desinformação, de imitação acrítica de outros praticantes ou de uma cultura de esforço que confunde quantidade com qualidade. A actividade física regular é um dos investimentos mais documentados na saúde, na longevidade e na qualidade de vida. Mas, como qualquer investimento, o seu retorno depende da forma como é feito. Treinar bem é, antes de mais, treinar com conhecimento.

Paulo Poba

Sou um apaixonado por futebol e anime, atualmente no último ano do curso de Ciência da Computação no Instituto Superior da Politécnico da Caaála. Desde cedo, sempre sonhei em ter um espaço dedicado a notícias esportivas, o que me levou a criar minha página em 2016. Desde então, venho me dedicando com afinco, buscando constantemente aprimorar meu conteúdo e alcançar um público cada vez maior. Meu objetivo é tornar minha plataforma uma referência no mundo esportivo, combinando minha paixão pelo esporte com minhas habilidades em tecnologia.

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